Bati em sua porta. Coração acelerado, mãos frias, goma de mascar na boca para disfarçar o nervosismo. Horas atrás estive aqui, lágrimas nos olhos, pés se arrastando até a porta, esta mesma que está aqui em minha frente agora.
Você abriu e me adiantei em pedir um copo d'água para que não tivéssemos assunto inicial. Foi inevitável.
- Olha - ele disse - eu sei o quanto está sendo difícil pra nós dois, mas...
Eu o interrompi, não queria ouvir aquelas palavras novamente. Você sabe, nossa longa história haveria de deixar marcas profundas e seria dispensável tocá-las para experimentar a dor. Ela já estava ali, fincada, cravada no peito.
- Esqueci meu óculos. - Disse fria e seca de forma que ele me olhou assustado. Pensou mesmo que eu estaria ali por um outro motivo. Ou pensou que talvez eu implorasse por mais uma chance. Mas não, eu não chegaria aquele ponto.
Varri os olhos pela sala e vi ele lá, o óculos, intacto, sobre a estante de madeira fina. É, eu o havia deixado mesmo ali, no momento que não queria que as lágrimas embaçassem suas preciosas lentes.
O peguei e saí. Sem me despedir, sem olhar pra trás. Sem dizer que, na verdade, era meu coração que eu esquecera ali, em sua casa, em sua sala, em suas mãos. Um dia quem sabe eu voltarei para buscá-lo também.